12 de ago de 2010

A exposição clara das doenças que podem acometer a grávida permite que todas as pessoas tenham acesso a formas simples, mas eficazes, de prevenção. O mais importante aspecto desta exposição é tornar mais evidente a necessidade de um pré-natal bem conduzido, isto significa um profissional interessado, uma cliente desejosa de bons cuidados e familiares ou amigos que se preocupam.

Uma relação deve considerar se a doença é específica da gestante ou se atinge a mulher não importando se existe gravidez. No primeiro caso, é exposto um rol de onze problemas exclusivos da gestante: hiperêmese gravídica, DHEG, gravidez ectópica, mola hidatiforme, placenta prévia, abortamento espontâneo, descolamento prematuro da placenta, poliidrâmnia, oligoidrâmnia, amniorrexe prematura, prematuridade. No segundo caso, não precisa haver gravidez para a doença ocorrer e são muitas as possibilidades: há desde uma simples gripe até uma pneumonia que exige internação, uma infecção urinária leve até uma grave pielonefrite, uma gastrite ocasional até uma apendicite. O mais importante é que um pré-natal bem conduzido pode diagnosticar todas as doenças, prevenir o aparecimento da maioria, tratar as mulheres quando as afecções aparecem e evitar ou diminuir seus efeitos negativos sobre o bebê.

Hiperêmese Gravídica                                          Muitas das mulheres que engravidam apresentam náuseas e vômitos nos primeiros meses da gestação. A taxa pode passar de 55%, dependendo da população estudada. Em geral, as náuseas e vômitos são transitórios, findam até o início do quarto mês, não se aompanham de sinais deletérios( sinais de desidratação como boca seca; de desnutrição como perda de peso), são leves, permitem a alimentação oral, respondem bem a alterações na dieta com ou sem doses pequenas e ocasionais de anti-eméticos. Neste caso, são ditas fisiológicas, normais.

Considera-se hiperêmese gravídica( vamos abreviar estes termos para HG) quando as náuseas e vômitos são persistentes, frequentes e às vezes intensos, nâo cedem facilmente aos tratamentos simples e progridem até causar distúrbios nutricionais e metabólicos como uma perda de peso acima de 4% do peso anterior, desidratação e cetonúria. Delimita-se o tempo do aparecimento das náuseas e vômitos: estes devem iniciar nas primeiras semanas da gravidez. Outras doenças que causam náuseas e vômitos, como a infecção urinária e a apendicite, precisam ser descartadas.

Tem uma incidência muito variável e que depende sobremaneira das condições socio-econômicas do local( em bora haja estudos desmerecendo a importância dos aspectos sociais na gênese da HG, é notório que as dificuldades para obter condições que garantam bem-estar, como acesso a serviços de saúde, são decisivas para a evolução da doença-sua piora, ou sua melhora). Podemos ter 1 caso em cada 500 grávidas.

É muito discutida a causa da HG. Provavelmente, é mais correto entendê-la como o resultado de diversos fatores agindo em conjunto. Há muitas teorias que tentam explicar sua causa( ou causas), eis algumas: - resposta anormal à gonadotrofina coriônica humana; – citotoxinas, produzidas à partir de substâncias das vilosidades coriônicas, penetram na circulação materna e desencadeiam reações anormais; – uma insuficiência da glândula adrenal levaria à hipersensibilidade à histamina, daí ocorreriam manifestações alérgicas como náuseas e vômitos; – deficiência de vitamina B6; – reação gastrintestinal de origem psicossomática. Há outras teorias, mas nehuma considerada isoladamente explica todos os detalhes da doença( inclusive as que aqui são citadas). Estudos mais recentes têm indicado um envolvimento maior do aparelho genético: filhas de mães que sofreram de HG, têm três vezes mais riscos de desenvolver esta doença. Aspectos raciais também têm sido implicados: as náuseas e vômitos da gravidez parecem ser mais frequentes entre mulheres ocidentais que entre asiáticas ou africanas.

Os vômitos contínuos provocam desidratação, depleção de  eletrólitos( H+, Na+, Cl-, K+,…), perda de vitaminas e ingesta calórica negativa. Há: perda de peso; fraqueza; boca seca, língua saburrosa e hálito cetônico( cheiro de frutas); diminuição do volume urinário e aumento do ácido úrico na urina; aumento da frequencia cardíaca e queda da pressão arterial. Corpos cetônicos( ácido acetoacético, ácido betahidroxibutírico) são detectados na urina: eles são oriundos da oxidação das gorduras, que são mobilizadas como fonte alternativa de energia, já que há ingesta calórica negativa. Eles também causam o hálito cetônico.

Enquanto a mulher não tem vômitos muito severos, frequentes e que não respondem a doses pequenas e ocasionais de anti-eméticos, ela se alimenta, tem a língua limpa e úmida, não tem uma significativa perda de peso e não se detecta cetose, não há grandes motivos de preocupação. Ao contrário, se há algum destes fatores e a gestante não se alimenta, a internação é mandatória. Observe que a perda de peso geralmente precede os sinais objetivos de desidratação.

O tratamento da gestante internada requer repouso absoluto em ambiente tranquilo e dieta zero( nas primeiras 24 a 48 horas ou enquanto persistirem os vômitos). Hidratação abundante, mas cuidadosa, por via venosa. Vitaminas, ferro e ácido fólico são ministrados por via parenteral, assim como uma sedação leve e a administração de anti-eméticos e/ou anti-alérgicos. Frequentemente, a recuperação com ganho de peso se dá em 5 a 10 dias de internação, quando ocorre a alta hospitalar.

Em geral, o prognóstico é bom para mãe e feto e não há consequências negativas para o bom evolver da gravidez. Embora haja relatos de recém-nascido de baixo peso( RNBP), prematuridade, morte fetal ou materna, eles são próprios de casos muito graves e/ou que não tiveram a devida atenção.